Uma quase despedida para a minha avó – 14/02/2025 – Marina Izidro

Esporte


A viagem para o Brasil não estava prevista. Aconteceu às pressas. Em algumas horas, reorganizei a vida para os próximos dias e, passagem comprada, fui para o aeroporto.

Menos de 48h antes de eu entrar no voo de Londres para o Rio, minha avó, de 89 anos, precisou fazer uma cirurgia de emergência na madrugada de quarta (12). A operação era um risco, mas teve que ser feita. O consolação de saber que o procedimento tinha sido bem-sucedido virou a angústia de esperar para ver uma vez que o organização dela reagiria no pós-operatório. Os médicos não estão otimistas.

Minha avó nem sempre foi uma pessoa, digamos, fácil. O gênio poderoso fez com que se afastasse de pessoas importantes. Nossa relação teve altos e baixos, mas, nos últimos anos, sinto que encontramos nossa melhor forma de nos relacionar e provar paixão. E ela também sabe ser generosa, tem uma risada gostosa de escutar, fazia uma bela canja de penosa quando eu era garoto. Sempre trabalhou e foi independente. E não tem pânico de proferir a uma pessoa que a patroa. Ela fala que me patroa com frequência, e vou lembrar disso com carinho.

Sou de uma família de mulheres fortes, uma vez que ela. Mas, antes disso, enquanto minha avó luta pela vida no hospital, eu, começando a grafar oriente texto no escuro do avião, me permiti chorar pelo luto de uma perda que ainda nem aconteceu.

Se você pudesse rodar um filme da sua vida, tipo aquele flashback de imagens que passam diante dos olhos do personagem principal, que cenas escolheria? Garanto que as mais especiais não serão as de conquistas materiais, e sim de interações humanas, encontros, histórias compartilhadas. Seja a comemoração de uma data peculiar à volta da mesa, ir com os filhos a um estádio de futebol ou outro esporte –ou quando seus pais te levaram pela primeira vez– e outras infinitas possibilidades.

Quando penso no ciclo da vida, me vem poderoso à cabeça a valor da atividade física e do paixão pelo esporte. Quem faz tirocínio vai ter uma vetustez com menos sofrimento, mais virilidade e mais saúde, vai poder recrear com os netos, se os tiver, e produzir mais cenas para incluir em seu próprio roteiro.

Minha avó não faz esportes, mas assiste na televisão a todas competições esportivas em que eu trabalho uma vez que repórter. Depois, me manda uma mensagem carinhosa dizendo que “acompanhou tudo”.

Eu e umas amigas costumamos proferir que, quando deixamos nosso país e vamos morar fora, nosso coração nunca mais fica inteiro. Há uma ramificação eterna, culpa pelo tempo que poderíamos ter pretérito perto de quem amamos, mas foi “perdido” porque decidimos seguir a vida do outro lado do oceano.

Preocupação de que, quando for a hora de proferir adeus a alguém que está longe, a despedida perfeita não terá sucedido. Um voo de 12 horas pode ser longo demais quando há pressa.

Cheguei a tempo no hospital e falei tudo isso para a minha avó, mesmo ela não estando consciente. Ao fundo, o som dos aparelhos que a ajudam a manter-se viva. Independentemente do que intercorrer, tento pensar que a tal despedida perfeita não existe, mesmo para quem mora a minutos de intervalo. Quero crer que é a coleção de momentos, o longo filme da vida que passa diante de nossos olhos, que realmente conta.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul aquém.



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *