Somos cruéis ao extremo conosco em momentos de frustração – 07/02/2025 – Marina Izidro

Esporte


Não tenho simpatia pelo tenista teuto Alexander Zverev.

Em 2022, em um torneio no México, ele xingou o juiz de “idiota de m…” por discordar de uma decisão e golpeou várias vezes a cadeira do avaliador com a raquete em um chegada de fúria. Foi expulso, multado, mas ficou por isso mesmo. Foi no ano em que Roger Federer se aposentou e o mundo do tênis debatia quem seriam os ídolos da próxima geração. Não seria Zverev. Até porque ele foi indiciado de um tanto muito pior do que um chilique: agressão contra duas ex-namoradas. Em um dos casos houve combinação na Justiça; o outro, a ATP investigou e arquivou.

Isto posto, uma vez que falta de simpatia não significa falta de empatia, nascente texto é sobre ele. Por um desabafo do teuto há alguns dias –sem relação com os fatos supra–, sinto que há um pouco de Zverev em muitos de nós.

Na final do Destapado da Austrália, ele foi derrotado para o número 1 do mundo, Jannik Sinner. O italiano domina o rodeio, tem sido quase imbatível. Mesmo assim, na entrevista pós-jogo, com ar de desolação, Zverev, que é o número 2 do ranking, disse: “Eu simplesmente não sou bom o suficiente”.

Há muito por trás dessa resposta. Aos 27 anos, foi a terceira guia dele em finais de Grand Slam. Sinner, 23 anos, já ganhou três, e Carlos Alcaraz, 21, quatro. Evidente que, logo depois de perder, a raiva é compreensível.

Mas atletas profissionais, acostumados com pressão, raramente demonstram fraqueza física ou mental. Deixar transparecer lesão ou pavor é dar munição ao contendor. Por isso, Zverev compartilhar com o mundo que não se considera bom o bastante me fez refletir sobre uma vez que temos a capacidade de sermos cruéis ao extremo com nós mesmos em momentos de frustração.

Também me interessei pelo tema porque sempre me orgulhei em expor que “perfeccionismo” era uma das minhas principais qualidades. Uma exemplar de desejo positiva e comprometimento. Sermos exigentes com nossa performance profissional é importante, significa que queremos fazer o melhor. Mas, se temos um dia ruim, o que eventualmente acontece, corremos o risco de autoboicote, sem percebermos.

Há estudos de renomados neurocientistas e psicólogos sobre uma vez que nosso cérebro é programado para a autopunição e sobre o efeito negativo em nossa saúde.

Conheci recentemente o trabalho da norte-americana Kristin Neff, professora do Departamento de Psicologia da Universidade do Texas. Ela diz que a autocrítica é quase um mecanismo de resguardo. Nos atacamos tentando nos convencer de que precisamos seguir em frente, sem reclamar, e assim estaríamos ajudando a nós mesmos. Mas isso aumenta níveis de estresse e inflamação no corpo, afeta a autoestima e acaba nos deixando inseguros.

Não ajuda as redes sociais tentarem nos fazer crer que é preciso conseguir níveis de perfeccionismo impossíveis. Nos comparamos a desconhecidos, imaginando uma vida perfeita que é, na verdade, impecavelmente fabricada.

Mas existem técnicas para reprogramar o cérebro e transformar autopunição em autocompaixão. A doutora Neff explica que a mudança de atitude não tem zero a ver com arranjo, com termos pena de nós mesmos ou com fraqueza, mas, sim, transformar erros em estágio.

No término, não tira nossa motivação; ao contrário, viramos pessoas ainda mais confiantes.


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