Quantos infartos são necessários para deixar de fumar? – 14/01/2025 – No Corre

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O ano começou pegado para a minha mana Lúcia. Sua loja de brinquedos, numa rua bacana da Vila Romana, em São Paulo, voltou a fechar no vermelho, o que já virava “default” em 2024. O que não se esperava, talvez porque ninguém quisesse pensar no tópico, era que um segundo infarto do miocárdio pudesse ocorrer, e logo na alvorada de 2025. E ele veio, porquê em 2018, numa noite de sábado, a de 11 de janeiro pretérito.

Nenhuma mensagem sobre os perigos do cigarro nestes últimos seis anos foi por ela considerada, fosse a dos médicos, fosse a de irmãos e sobrinhos, sempre mais lenientes com o hábito; mesmo o relato da cena de seu ex-marido a pedir, porquê praticamente último ato de vida, um cigarro, parece tê-la sensibilizado.

Foi em 2004, e eu fui testemunha ocular: Edgard mal tinha forças para sustentar o cigarro –acho que ele preferia Chanceller, “o fino que satisfaz”– naquela leito de hospital, licença que lhe foi feita pelo médico à maneira de um agente penitenciário naqueles filmes em que o sentenciado à pena inevitável encara seus últimos minutos. Edgard tremia copiosamente, mas deve ter conseguido tragar. Espero que sim.

Numa definição ligeira, o cigarro é o término da picada, porquê sabem tantas gerações que sucederam à da minha mana, hoje com 66 anos. Ela já leva cinco décadas ininterruptas de tabagismo, vício que na sua era de adoção era tão glamourizado pelo cinema, pela TV e pela vida cotidiana.

É improvável que no término daqueles anos 1960 se falasse que a nicotina é a substância mais viciante de que se tem notícia, ou uma das mais, como tão sistematicamente lembra o médico Drauzio Varella cá mesmo nesta Folha. Que desculpa mais obediência do que o crack.

Quando cito Drauzio pela enésima vez para Lúcia, ela faz um muxoxo, aquiesce um tanto mecanicamente, chega a replicar que Fernando, irmão do médico, morreu precocemente aos 44 anos de cancro no pulmão. E, talvez por já estar muito mais avançada em anos do que Fernando ao morrer, me dá um perdido e desaparece para mais um cigarrinho.

No livro “O Imperador de Todos os Males – uma Biografia do Cancro”, o oncologista e grande redactor Siddhartha Mukherjee conta a história, entre tantas outras, dos esforços de relações públicas e de propaganda da indústria do cigarro em negar a ciência que vinculava o resultado ao cancro de pulmão; e recorda o lixo de “dezenas, depois centenas, de milhões de dólares em campanhas publicitárias no pós-guerra”.

O responsável escreve que a propaganda passava a se sofisticar, e marcas de cigarro eram desenhadas para categorias profissionais e grupos sociais distintos. “Mais médicos fumam Camels”, mostrava um proclamação de quarta revestimento da revista Life em 1952, um dos coligidos por Siddhartha.

Quando Lúcia voltou finalmente da UTI, ficamos sabendo que sua capacidade cardíaca se reduziu em 50%. Houve obturação da mesma artéria antes comprometida e na qual havia sido implantado em 2018 um “stent”. Segundo os médicos, essa situação tornou a guerra pela vida em seguida o infarto de sábado bastante mais intensa.

Nem isso, penso quase sem melancolia, vai ser suficiente para desviá-la daqui a alguns dias de mais um cigarrinho.


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