O clima é de sarau. De um lado, o homem-aranha ajusta o número de peito. Do outro, uma pessoa vestida de padre se prepara para decorrer 15 quilômetros segurando uma minichurrasqueira. A Corrida Internacional de São Silvestre é uma celebração do esporte, inclusive amásio, e da própria cidade de São Paulo. Mas tem ficado cada vez mais difícil, efetivamente, decorrer no evento.
Em sua 99ª edição, nesta terça-feira (31), a prova teve 37,5 milénio inscritos, um recorde. Para dar conta de tamanho fluxo, a novidade organizadora prometeu uma largada em ondas, espaçadas de convenção com a velocidade planejada pelo participante. Mas, na confrontação com o ano pretérito, foi difícil notar a diferença.
No guia do desportista, o horário de largada de todo o pelotão universal era o mesmo, às 8h05, com a informação de que poderia ter variação de dez minutos para mais ou para menos. Na Maratona do Rio deste ano, uma prova com menos de 10 milénio concluintes, o pelotão universal largou com uma diferença de tapume de meia hora.
Já na saída, depois a euforia da largada, quem estava no pelotão virente (previsão de terminar a prova entre 75 e 90 minutos) deu de rostro com um muro de gente na região em que está instalado o palco da sarau de Réveillon da Paulista, antes do túnel que liga a avenida à Doutor Arnaldo. A saída era caminhar e esperar ou fazer uma selfie.
A sensação de empurra-empurra, com pisões ocasionais no calcanhar de quem vinha avante, manteve-se até tapume de metade da prova, já no meio de São Paulo. No meu caso, o momento de maior liberdade de movimento foi na rossio da República. Um conforto.
Para o galeria amásio, a São Silvestre não é exatamente uma prova de velocidade, de procura por quebra de recordes. É uma sarau, com gente fantasiada, amigos reunidos: uma confraternização de termo de ano da comunidade em que uma das principais atrações é a própria cidade e a população.
Ao contrário de grande segmento das corridas na capital paulista, em que os participantes são levados a longos trajetos pela inóspita e vazia 23 de Maio (em que se pode, efetivamente, decorrer), a prova idealizada pelo jornalista Cásper Líbero tem gente na torcida por quase todo o tempo.
Na sempre desafiadora subida da avenida Brigadeiro Luís Antônio, cada grito de suporte de completos desconhecidos é de uma ajuda difícil de mensurar. Mas até ali, na ladeira, era preciso tomar zelo com cotoveladas antes de seguir em frente. Rumo à histórica centésima edição, a São Silvestre poderia procurar formas de liberar o trânsito.