É função de um bom repórter manter-se atualizado, cultivar fontes e se inteirar das discussões mais analíticas e atualizadas na sua dimensão de atuação. No jornalismo de China, porém, poucas coisas substituem observar de perto a veras. Esta semana serviu para me lembrar disso.
Estou concluindo minha primeira viagem para a China desde que deixei o país em julho de 2022. Oportunidade para encontrar amigos, caminhar pelas ruas de Pequim, me perder nos cheiros, sabores e sentimentos que exalam em cada quina da cidade, mas sobretudo de tentar entender o que mudou de lá para cá. Isso porque não se trata exclusivamente de fazer turismo, mas de tentar sentir, mesmo que de forma superficial, o pulso de um país que, da última vez que vi, estava no auge da Covid zero.
A pilar desta semana é uma oportunidade para compartilhar um pouco das minhas impressões iniciais. A encetar pela dissonância entre narrativa, noticiário e experiências individuais. Tudo que tenho lido (e ouvido) sobre a economia chinesa nos últimos meses apontava para um país em um franco padrão de desaceleração, lutando para sustentar o consumo e recluso a problemas estruturais uma vez que investimento estatal excessivo e ineficiência. É exclusivamente segmento da história.
Quem desembarcar em Pequim talvez se surpreenda com lojas cheias. Há talvez significativamente menos estrangeiros nas ruas em conferência com a era pré-pandemia, as pessoas seguem cautelosas com seus gastos, a suspeição na força do mercado de vez em quando surge em conversas casuais, mas na superfície tudo me pareceu muito mais vibrante e dinâmico do que quando eu morava cá.
Outrossim, zero melhor que estar na China para constatar quão descolada está Washington da veras. Prevalece nos Estados Unidos um siso de preciosismo onde só americanos conseguem inovar e que restrições à exportação de tecnologia para a China são uma sentença de morte para Pequim.
Pareceu-me o contrário: enquanto americanos seguem presos a debates comezinhos sobre investimento estatal versus privado, reforma fiscal para bilionários e (que ironia) impacto do próprio protecionismo, os chineses têm avançado em áreas como eletrificação não só da frota automotiva mas potencialmente até da indústria de aviação, digitalização da moeda e interiorização da tecnologia de ponta.
China, todavia, é uma vez que se convencionou invocar um país formado por territórios massivos, população gigantesca e realidades diametralmente distintas entre duas províncias vizinhas. Logo é preciso aprofundar o debate para entender de onde vem tanta impaciência e pessimismo. Circula, por exemplo, a estimativa de que os governos provinciais —exauridos pela Covid zero e incapazes de gerar receita vendendo direitos de usufruto da terreno para um mercado imobiliário que está em profunda crise— acumulam ¥ 3 trilhões (R$ 729 bilhões) em dívidas.
O gigante asiático segue formando 10 milhões de universitários, 4 milhões deles engenheiros, anualmente, e claramente não será capaz de aspirar todos eles. Há debates vigorosos em curso acerca do impacto da lucidez sintético em um mercado de trabalho já combalido e um entendimento tácito de que, ao menos no limitado prazo, não haverá resposta global sobre uma vez que responder a levante duelo por meio de órgãos multilaterais.
Demais, as soluções mais fáceis para impulsionar o consumo, uma vez que a aceleração na reforma do sistema de hukou que limita a transmigração interna artificialmente, têm escora político no governo meão mas pouco gosto para regulamentação e implementação no nível sítio.
Ainda que queira ver trabalhadores migrantes gastando mais e potencialmente investindo nas grandes cidades, governos provincial e meão seguem temerosos do que uma transmigração em volume para centros urbanos poderia fazer com o risco de instabilidade fomentar ou mesmo na oferta de serviços públicos nas metrópoles.
Há impaciência e incerteza, mas também otimismo. Teremos tempo para aprofundar tais discussões em textos mais abrangentes no horizonte próximo, mas fica cá o alerta: nenhuma estudo (incluindo algumas das minhas próprias) sobre a China me parece profunda o suficiente se não é ao menos parcialmente calcada na experiência in loco. É uma regra importante a não se perder de vista.
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