Ainda era uma terreiro São Pedro quase vazia, com mais jornalistas e cinegrafistas do que fiéis e turistas, quando os primeiros cardeais começaram a entrar no Vaticano, por volta das 8h30, no horário lugar. Reconhecíveis pela batina preta com detalhes em vermelho, alguns chegaram caminhando pelas ruas de Roma.
O compromisso era a primeira reunião preparatória para as cerimônias fúnebres e o conclave que vai sentenciar o nome do sucessor do papa Francisco, morto nesta segunda-feira (21), aos 88 anos. Convocados pelo decano do Escola Cardinalício, Giovanni Battista Re, todos os cardeais podem participar do encontro, chamado de congregação universal.
Iniciada por volta das 9h, a reunião, na sala novidade do sínodo, contou com a presença de murado de 60 cardeais, de um totalidade de 252, sendo 135 deles com direito a votar no conclave. Desse tipo de reunião podem participar inclusive os que são maiores de 80 anos e, portanto, não são mais eleitores. Para eles, porém, a presença é facultativa.
O quórum estava reduzido porque muitos cardeais ainda estão a caminho de Roma. Dos 252, 55% são de fora do continente europeu —uma consequência das escolhas de Francisco em seus 12 anos de papado, com aumento da representação dos continentes asiático e africano. A próxima congregação universal está agendada para esta quarta-feira (23), às 17h do horário lugar, quando mais cardeais já devem ter desembarcado na cidade.
Mesmo assim, as primeiras decisões importantes foram tomadas. O principal rito do funeral, a missa com a presença de autoridades religiosas e chefes de Estado e de governo, foi confirmado para o sábado (26), às 10h (5h em Brasília). Ela também será comandada pelo decano Battista Re. Mais tarde, outros rituais vão preparar o sepultamento do corpo do papa, que será levado para a basílica Santa Maria Maior, em Roma.
Também decidiu-se que o corpo do papa, que estava sendo velado na capela da Moradia Santa Marta, será levado na manhã de quarta para a Basílica de São Pedro, onde os fiéis poderão se despedir do pontífice.
O transporte do corpo ocorrerá por volta das 9h (4h de Brasília), depois de uma prece comandada pelo cardeal camerlengo, Kevin Farrell. A procissão vai percorrer da terreiro Santa Marta até a terreiro São Pedro, chegando pelo Círculo dos Sinos, do lado recta da basílica. A ingresso na basílica será pela porta mediano.
No altar da Confissão, o cardeal Farrel vai presidir outra cerimônia fechada, em seguida a qual será iniciada a visitação. Os fiéis poderão entrar na basílica das 11h (6h em Brasília) às 24h; na quinta, das 7h às 24h; e na sexta, das 7h às 19h. Autoridades de Roma se preparam para receber 1,3 milhão de pessoas nos próximos dias.
Com duração de 1h30min, o encontro também definiu os nomes dos primeiros auxiliares do camerlengo. Por sorteio, ficou determinado que os cardeais Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, Stanisław Ryłko, arcipreste da basílica Santa Maria Maior, e Fabio Baggio, subsecretário do Dicastério do Desenvolvimento Humano Integral, vão ajudar Farrell em decisões simples. Depois de três dias, novo sorteio estabelece os próximos auxiliares. Questões graves devem sempre ser tratadas nas congregações gerais.
Ainda não há data para o conclave. Na sala de prelo, o Vaticano disse que a prioridade eram as decisões relacionadas às cerimônias fúnebres.
No entorno do Vaticano, que amanheceu impenetrável com diversos pontos de controle de segurança, o volume de visitantes e de jornalistas é crescente desde o proclamação da morte do papa. O sol e a temperatura amena, pouco supra dos 20°C, ajudaram a atrair turistas e curiosos.
A brasileira Letícia Ferreira, 39, veio de Anápolis (GO), passar a Semana Santa com uma prima moradora de Roma, e aproveitou para visitar a basílica na tarde desta terça-feira (22). “Atravessei a porta santa [aberta por causa do Jubileu da Igreja] e orei bastante pelo papa. Francisco era um papa hospitaleiro, gostava de estar entre as pessoas”, disse ela, que achou o Vaticano mais referto do que no domingo de Páscoa, quando Francisco fez o que viria a ser sua última aparição em público. “Dentro da basílica tem bastante turista, mas também bastante emoção.”
A italiana Rita Marani saiu comovida da terreiro, em seguida visitar a basílica e também encruzar a porta santa. “Amanhã vamos voltar [para velar o corpo do papa]. Francisco foi muito bom, sabia estar com os poderosos e com os humildes”, disse. Sobre o próximo papa, disse não saber qual seria um perfil adequado. “Leste nós não conhecíamos, e ele se mostrou uma pessoa maravilhosa.”