O gol que abriu caminho para a sofrida vitória brasileira contra a Colômbia nasceu de um lançamento cinematográfico de Raphinha para Vinicius Junior, que foi atropelado dentro da extensão pelo protector Muñoz. Pênalti! O próprio Raphinha se apresentou para fustigar. Caminhou lentamente para a esfera, gingou diante do goleiro Camilo Vargas e, com um toque de classe, abriu o placar.
O camisa 11 é assim. Lança, finaliza, bate faltas e pênaltis, marca possante, rouba bolas. Multiplicando-se em diferentes posições do meio-campo e do ataque, tornou-se um dos melhores jogadores do mundo na atualidade.
Os números atestam. Defendendo as cores do Barcelona, ele é o bombeiro da Champions League. Com 11 gols em 10 jogos, já é o brasílico que mais fez gols em uma única edição da competição, superando, entre outros, Neymar e dois vencedores da Esfera de Ouro –Rivaldo e Kaká.
Ele próprio é considerado um dos candidatos ao prêmio neste ano, ao lado do gaulês Mbappé, do egípcio Mohamed Salah e de seu companheiro de seleção Vinicius Junior.
Para além dos gramados, uma boa medida do sucesso do craque brasílico está nas livrarias. Há quase uma dezena de biografias de Raphinha no mercado britânico de “instant books”. O tom das obras muitas vezes descamba para a autoajuda, apresentando o jogador brasílico porquê um exemplo de superação. Os autores não estão de todo errados.
Endrick, Estêvão, Vítor Roque, Vinicius Junior. Os brasileiros se acostumaram a ler sobre transferências milionárias de craques ainda adolescentes para clubes do “top 10” europeu. Raphinha só chegou à família das equipes mais ricas do mundo quando foi contratado pelo Barcelona, em 2022, aos 25 anos. E só atingiu sua melhor versão agora, aos 28. Foi uma curso construída tijolo a tijolo, aprendizagem a aprendizagem, mas de forma bastante sólida.
Nascido na Restinga, um bairro da periferia de Porto Contente, Raphael Dias Belolli nunca atuou num clube grande no Brasil. Sua única experiência profissional no país foi no Avaí. A primeira oportunidade na Europa veio no Vitória de Guimarães, um clube pequeno do setentrião de Portugal. Depois de se primar em equipes médias no contexto europeu, porquê o Sporting e o Rennes, surgiu a oportunidade de atuar no principal campeonato pátrio do continente, a Premier League.
Foi no Leeds United que Raphinha encontrou o técnico que mudou sua vida: Marcelo Bielsa. Sob a batuta de “El Loco”, porquê lhe chamam os conterrâneos argentinos, o craque brasílico aprendeu que atacantes têm múltiplas funções, e uma delas é marcar os zagueiros. Muitos dos gols que Raphinha faz hoje nascem dessa capacidade. No início do mês, no primeiro jogo do mata-mata da Champions contra o Benfica, em Lisboa, Raphinha ficou atilado a um erro de passe do zagueiro António Silva e anotou o gol da vitória.
É verosímil que não tenha sido por eventualidade. Os clubes “top 10” europeus têm departamentos de monitoramento que estudam os adversários. Obsessivo, Raphinha contratou um espião estatístico só para ele, a Performa Sports, do Rio de Janeiro. Ele sabe com antecedência, por exemplo, quais zagueiros costumam errar passes e qual o esquina preposto dos goleiros na hora do pênalti. Raphinha também treina obsessivamente cobranças de faltas. Insistiu para que o Barcelona comprasse uma barreira eletrônica, que “pula” na hora dos chutes.
Raphinha tem uma enorme capacidade de aprender com grandes treinadores, mas nem sempre a química funciona. O atacante brasílico, que se destaca pelo drible, pela força e pela velocidade, não se encaixou na troca exasperante de passes do espanhol Xavi Hernández, seu primeiro técnico no Barcelona. Tudo mudou com a chegada do teutónico Hansi Flick, que assumiu o clube azul e grená no início da temporada passada. O time catalão passou a jogar um futebol veloz, físico, objetivo, voltado para o gol, ideal para Raphinha prefulgir.
Flick também incentivou Raphinha a desenvolver habilidades em todas as posições do ataque, pela direita, pela esquerda, pelo meio ou recuado porquê se fosse um camisa 10. No Barcelona, ele forma um ataque de sonhos, onde três gerações se encontram e se completam, revezando-se em todas as posições.
Seus companheiros são o polonês Robert Lewandowski, um jogador que porquê Raphinha amadureceu aos poucos —tem 36 anos, e só conquistou o prêmio The Best, da Fifa, com 32—, e o prodígio Lamine Yamal, que aos 17 anos já é titular e destaque da seleção espanhola campeã europeia. Raphinha é visto no elenco porquê um jogador que, além de prefulgir, cria situações para os companheiros. Ele está entre os que se revezam com a braçadeira de capitão do time e é o jogador do Barcelona com mais assistências na Champions.
Essa capacidade coletiva faz falta na seleção brasileira atual. Contra a Colômbia o Brasil se mostrou novamente um time com muitos talentos individuais, porquê o próprio Raphinha, Vinicius Junior, Rodrygo, Gerson e Alisson, mas sem liga. O time carece de alguém que junte as peças e faça o motor engrenar. Talvez levante Raphinha em sua melhor versão acenda a faísca que falta.
RAPHINHA
Idade: 28 anos
Profundidade: 1,76 metro
Times em que já jogou profissionalmente: Avaí (2016), Vitória de Guimarães B (2016), Vitória de Guimarães (2016-2018), Sporting (2018-2019), Rennes (2019-2020), Leeds (2020-2022), Barcelona (2022-hoje)
Títulos: No Barcelona: Vencedor espanhol (2022-2023), Vencedor da Supercopa da Espanha (2022-2023, 2024-2025). No Sporting de Lisboa: Vencedor da Taça de Portugal (2018-2019), Vencedor da Taça da Liga de Portugal (2018-2019)
DESEMPENHO NA TEMPORADA 2024-2025
Champions League
Gols: 11
Assistências: 5
Participação em gols: 50%
Campeonato Espanhol
Gols: 13
Assistências: 10
Participações em gols: 36%
Totalidade da temporada: 27 gols e 20 assistências em 42 jogos
Manancial: Transfermarkt