Você gosta de ser equivocado? Eu não paladar. E fico incomodado com a quantidade de noticiário enganoso que me é oferecido.
Acontece dia a dia, via celular. Mesmo eu não tendo me inscrito para receber alerta de determinado site, ele chega. (Deve dar para bloquear, descobrirei uma vez que.)
Ocorre também quando deslizo a tela para o lado, e aparece uma lista com “notícias”. Essa lista me oferta teor predominantemente futebolístico. Meu celular sabe que eu paladar de e acompanho futebol –há nele alguma instrumento, de alguma companhia, que me monitora.
Escrevo “notícias”, entre aspas, porque uma secção delas não corresponde à veras. Pelo menos, não no título. É o chamado título “caça clique”.
O exemplo mais recente, verificado no momento em que escrevo, é nascente: “Por regra da CBF, Corinthians, Palmeiras e Grêmio estão FORA da Despensa do Brasil”. Com a vocábulo “fora” em letras garrafais.
Uma vez que assim? Tenho certeza de que esses grandes times estão na Despensa do Brasil. Logo o título é mentiroso? É. Pois está incompleto. No texto, a menção é à Despensa do Brasil sub-17.
Quem publicou? Um site chamado Basquete Todo Dia, que nem teor de futebol deveria publicar. O mesmo que, um dia antes, titulou “Palmeiras fecha negócio com L. Henrique”. Opa! Luiz Henrique, que brilhou no Botafogo em 2024? Não. Lucas Henrique, 17, das categorias de base.
Outros exemplos de títulos caça-cliques: “Guardiola acertou contrato e fechou com o Real Madrid” (Portal do Cruzeirense), “Salah decide que irá jogar em gigante europeu depois deixar Liverpool no término da temporada” (Somos Fanáticos), “Seleção brasileira confirma amistoso no Pacaembu” (Portal do Palmeirense).
Não, o texto não diz zero sobre acerto com o Real de Pep Guardiola, que tem contrato até 2027 com o Manchester City. Não, o texto não aponta para onde Mohamed Salah irá, caso saia mesmo do Liverpool, unicamente destaca interesse do PSG. E sim, o texto afirma que a seleção brasileira jogará no Pacaembu –não a de futebol, uma vez que qualquer um supõe, mas a feminina de basquete, no ginásio da arena paulistana.
Extremo o estelionato. Manipulam-se títulos para induzir o leitor a clicar nele. Com qual objetivo? Lucrar audiência, para poder atrair anunciantes para suas páginas e lucrar verba. Quem anuncia? Predominantemente, casas de apostas.
Sobre casas de apostas, quando vejo esportistas e personalidades de renome, incluindo astros do futebol e até campeãs olímpicas, propagandeando a jogatina, a indignação aflora. Minha filha, estudante que atua às vezes uma vez que influencer, me contou que recusou oferta (com cachê considerável) para propalar o jogo do tigrinho. Fiquei orgulhoso dela.
Mencionei uma quadra de sites, há dezenas de outros que recorrem ao mesmo artifício impostor, do título caça-clique. Se o embuste é frequentemente utilizado, é porque dá resultado.
Esses mesmos sites, ao se apresentarem, falam em adotar o “jornalismo moderno”, fugir do “jornalismo engessado”, oferecer “teor cuidadosamente elaborado”, fazer “apuração rigorosa” e “verificação de fatos”. Se o jornalismo pudesse, os processaria.
Peroração 1: há muita gente que engana na mídia esportiva. Peroração 2: há muita gente que gosta, ou aceita, ser enganada e, pior, que espalha as fake news para sua rede de contatos (amigos, parentes, a turma “do grupo do futebol”).
Desinformação que corre solta, sem que ninguém cerceie o método. Enganação sem limites. Eu não paladar. E você?
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