“Ainda Estou Aqui“, o melhor filme internacional conta com enorme sensibilidade, simplicidade e emoção, sem espetacularização e efeitos especiais, a vida de uma família decente e humana, atormentada pela ditadura. Vendo o filme parece que estamos dentro da lar. Talento é tornar simples o que é multíplice.
Lembrei-me da quadra, 1971, um ano depois da conquista da Copa do Mundo e um ano antes da Despensa das Confederações, quando o Brasil ganhou a final contra Portugal por 1 x 0, no Maracanã. Eu, que joguei improvisado de centroavante na despensa de 1970, atuei na posição de Pelé, que já tinha se despedido da seleção, que era a mesma posição que eu atuava no Cruzeiro.
A seleção se hospedava no Hotel das Paineiras, perto do Cristo Redentor. Treinávamos, com frequência, na Urca, onde foi filmado “Ainda Estou Cá”. Nas folgas, descia de bondinho que passava detrás do hotel até o bairro Santa Tereza. Daí ia passear no Leblon, onde ficava a lar que não existe mais da família Paiva. Gostava de caminhar pelo Arpoador para ver o pôr do sol e quem sabe encontrar os meus ídolos literários, porquê Fernando Sabino e outros, que costumavam se encontrar no bar Barril.
Entre os anos de 1969 e 1972, dei uma entrevista no Pasquim, quando critiquei a ditadura e a falta de liberdade. Pouco tempo depois, alguém que não conhecia, me telefonou, disse que era meu apreciador e no final me alertou para ter desvelo com o que dizia. Porquê mineiro, até hoje desconfio que fosse um aviso do poder.
Viajo no tempo e chego ao mundo atual. Impressiona-me as altíssimas quantias nas contratações, vendas e salários do futebol brasílico. Os melhores jogadores de outros países sul-americanos que não estão na Europa atuam no Brasil. As equipes são seleções do continente. A língua é o portunhol, acompanhada pelo português de Portugal, devido à presença de tantos treinadores portugueses.
De onde vem tanto numerário? São várias as fontes, principalmente das casas de apostas, que invadiram o futebol brasílico. Craques, ex-craques e até jornalistas se tornaram garotos propagandas das casas de apostas. Só falta o presidente da CBF gravar um mercantil.
Basta um clique no celular para fazer apostas. Por pretexto da ilusão de que vai lucrar, o apostador gasta o numerário que seria principal para remunerar as contas e viver. Mais grave ainda é o aumento dos viciados no jogo, influenciados pela propaganda, que pode ter graves consequências.
Alguns clubes brasileiros passaram a contratar até jogadores que estão na Europa. O Palmeiras, que arrecadou uma riqueza com a venda de vários jovens para a Europa, pagou quase R$ 200 milhões para trazer o meio avante Vitor Roque. Ele poderá ser um ótimo reforço, mas não há nenhuma certeza.
Vitor Roque foi mal no Barcelona e no Betis, da Espanha. Diferentemente de Endrick, que está na suplente do Real Madrid, mas que Ancelotti aposta que se tornará um craque, o Barcelona não teve essa esperança com Vitor Roque e preferiu negociá-lo com o Palmeiras.
Endrick e Vitor Roque são artilheiros. Ainda não são craques. É preciso separar os artilheiros dos craques artilheiros. O que encanta não é só o número de gols.
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