Há murado de três anos frequento as redes sociais do concessionário do estádio do Pacaembu para saber do curso da reforma da piscina, uma das raras piscinas públicas paulistanas de medida olímpica, ou seja, com raias de 50 metros de comprimento.
Oficialmente a concessionária não reinaugurou o equipamento. Faltam escadas de chegada à piscina e finalização de vestiários —o masculino não mudou muito desde os tempos pré-João Doria, ou seja, pré-concessão. Mas em seguida fiascos e adiamentos sucessivos da reestreia do multíplice, a Prefeitura de São Paulo decidiu tarar a mão e obrigou seu prestador a liberar o equipamento.
Ficou tudo meio na surdina. A concessionária divulgou que iria produzir um app para normatizar o uso, e de indumento o criou, mas a utilização da piscina e das canchas de tênis aparecem ali sob um esfíngico “em breve”.
No termo de janeiro, todavia, a tigrada começou a voltar. O horário é generoso. De terça a domingo, enquanto houver luz solar. Não é necessário reservar nem apresentar revista dermatológico –um tanto que deverá ser mandatório, a julgar pelas informações do app.
Eu revi a piscina nesta quarta (26), logo depois de ter recebido um diagnóstico de melanoma controlável, “in situ” –um tanto que não vem muito ao caso cá, mas ajuda a dar certa cor à narrativa e, mais importante, a alertar para os perigos da exposição solar, sem incerteza a variável que modificou o caráter daquela pinta que eu sempre cultivei no meio das costas.
(Acumulo horas de exposição solar nas corridas que faço, algumas delas em horários pouco recomendáveis, embora cidades poluídas uma vez que São Paulo já não devam comportar horários diurnos recomendáveis. Filtro solar talvez não seja mais suficiente, a saída quem sabe é combinar com as galinhas.)
Mas de volta ao Pacaembu. É lamentoso que uma cidade do tamanho de São Paulo tenha tão escassas opções de piscinas olímpicas públicas. Esses equipamentos são comuns em muitas capitais pelo mundo, e a demanda certamente cresce com o aquecimento global.
A reabertura à fórceps não foi só da piscina, mas também da pista de atletismo do estádio, em torno do gramado, agora sintético. Por volta de 11h, murado de dez brasileiros faziam uso do equipamento, levante sim um lucro para o paulistano, já que antes ele ficava desviado por alambrados.
São Paulo tem ainda a piscina olímpica do multíplice do Ibirapuera, de gestão estadual, mas a temperatura da chuva, às vezes 16 ou 17 graus, torna a experiência ali verdadeiro ato de coragem. Todas as vezes que fui lá em 2024 saí batendo queixo. Eu, sujeito relativamente mão de vaca, cheguei a cogitar comprar uma daquelas roupas emborrachadas.
Não sei se é levante o objetivo final —e dissimulado— do gestor público, o de fazer o cidadão acostumar-se com um rebaixamento de seus direitos, mas tendo a crer que somos gradativamente convidados a nos habituar com menos. Com a pandemia, locais de uso público uma vez que a rossio do Pôr do Sol e o Minhocão foram interditados, e a reabertura se deu de maneira parcial, limitada, com utilização muito aquém do que era.
O problema: cada vez que ganhamos alguns centímetros ou minutos de uso de um tanto que sempre nos pertenceu amplamente, mas que foi temporariamente interditado, isso já parece nos satisfazer. Perdão pela chave distópica desta peroração, mas acostumamo-nos com migalhas que sobram de uma repasto que temos cada vez mais dificuldade em lembrar que um dia comemos.
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