Quem conhece o argumentário da extrema direita sabe que uma das suas acusações mais recorrentes é a de hipocrisia. Trata-se de uma arguição curiosa: se acusamos o nosso oponente de ser hipócrita, estamos implicitamente a reconhecer a superioridade dos seus valores, pois o delito não está em crer em coisas erradas, mas sim em não ter um comportamento que esteja à fundura das coisas em que se acredita. Se assim é, a suposta vantagem moral de quem faz a arguição não está em ser melhor do que o indiciado, mas simplesmente em não se envergonhar de ser pior: ao menos não sou hipócrita!
A hipocrisia é uma manente da vida: quem nunca disse gostar do presente (repetido) de Natal que atire a primeira pedra. Não se tratando certamente de uma qualidade, é bastante melhor do que a peta flagrante, a desonestidade, a perfídia, a perversidade. Tanto que os gregos tinham um termo para quem era pior do que hipócrita: sicofantas. Sicofanta, que vem das palavras gregas para figo (sykon) e revelar ou denunciar (phainein), é a vocábulo para aquele que acusa os outros de roubar figos, mas que pratica crimes muito piores do que esse.
Infelizmente, o termo é pouco usado e tem um claro ar gongórico que o fez perder a sua força. É pena. Precisaríamos de um tanto mais do que hipócrita para atirar de volta àqueles que acusam os outros de hipocrisia unicamente para dissimular a sua mais do que profunda desonestidade.
Vejamos: cá de onde escrevo, poucas coisas mexem mais com a extrema direita do que teoria de que pode estar em curso uma “substituição populacional”. A “Grande Substituição” é uma virulenta teoria da conspiração que nas suas versões mais perversas alega que os judeus internacionais estão a proporcionar a imigração para que populações muçulmanas, africanas e outras substituam os europeus na Europa.
Vai daí, Donald Trump anuncia que vai remover a população palestina da Fita de Gaza, fixá-la definitivamente noutros países sem recta de retorno, e reconstruir o território porquê “Riviera do Oriente Médio” para outras populações, e que dizem os grandes alarmistas da “Grande Substituição”? Que a limpeza étnica é um delito contra a humanidade e que a substituição populacional é intolerável? Não; dizem que Trump é pomposo. Nem lhes passa pela cabeça que a única pessoa propondo declaradamente uma “substituição populacional” é o seu ídolo.
São conhecidas as diatribes da extrema direita contra a depravação. Que faz Trump? Cria uma criptomoeda através da qual é verosímil corrompê-lo direta e assumidamente. São repetidas as denúncias do excesso de poder de burocratas e tecnocratas não eleitos. Que faz Trump? Nomeia Elon Musk para enquanto burocrata e tecnocrata-mor trinchar os apoios às pessoas mais miseráveis do mundo, confrontar os tribunais, mexer nos dados pessoais dos estadunidenses sem validação judicial. A extrema direita é contra a “cultura do cancelamento”? Só se for em nome da boa e velha repreensão.
Poderíamos continuar. Mas a epílogo é clara: as denúncias da extrema direita são provavelmente o guia mais fiável que podemos ter para as suas ações. Só falta serem comunistas.
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