Naomi Klein começou a ser sugada por uma crise de identidade. De início parecia só um incômodo rente, mas de repente ela se sentia sumindo no meio de um sorvedouro, sem saber onde se segurar. Não se engane, estamos falando mais de política que de psicanálise.
Uma das intelectuais mais celebradas da América do Setentrião, a canadense era às vezes confundida com outra escritora de sucesso, Naomi Wolf. Até aí, zero irregular —as duas eram quase contemporâneas, tinham alguma semelhança física e defendiam ideias de esquerda.
Klein ficou conhecida por críticas sistêmicas ao neoliberalismo em obras porquê “Sem Logo” e “A Ensinamento do Choque”. Wolf se celebrizou por “O Mito da Venustidade”, um protesto contundente contra as imposições sociais ao corpo feminino.
Tudo passou a permanecer muito mais estranho quando Wolf, a “outra Naomi”, começou a ser rejeitada pelo campo progressista ao embasar cada vez menos suas ideias em fatos históricos e científicos, entrando numa lesma de teorias conspiratórias.
Ao ser cobrada nas redes sociais porquê se fosse sua homônima, Klein testemunhou de perto a mudança de Wolf em uma estandarte do negacionismo do clima e da pandemia. Sua contraparte virou convidada de honra no podcast “The War Room”, de Steve Bannon, o estrategista-mor de Donald Trump.
Às vésperas da posse do republicano para um segundo procuração, o livro que Klein escreveu sobre sua experiência, “Doppelgänger”, ilumina os métodos pelos quais o trumpismo atraiu eleitores imitando táticas da esquerda, criando um submundo de “fatos alternativos”, se apresentando porquê mais tolerante a erros e estendendo tapete vermelho a ex-progressistas frustrados.
A autora entendeu que seu mergulho no “mundo virado” da outra Naomi ensinava um tanto sobre as mudanças por que passam tantas democracias hoje, na “segmento mais assustadora” de sua “jornada doppelgänger” —sentença alemã que define duas pessoas que se parecem muito.
“Não é unicamente um tipo que pode ter um duplo sinistro; nações e culturas também os têm.” O Estado incorporado pela extrema direita, segundo ela, é o “irmão gêmeo ubíquo das democracias liberais ocidentais”, “versões sombrias de nosso eu coletivo”.
O livro lançado há pouco no Brasil fala da sensação universal de não saber mais discernir o que é real do que não é —um sentimento difuso de desorientação, de “jet lag coletivo”. Foi buscando retomar o esteio que Klein elaborou seu longo tentativa e deu essa entrevista exclusiva à Folha por videoconferência.
Seu livro antecipou falhas do campo progressista que ficaram mais visíveis posteriormente a eleição de Trump. A sra. retrata a postura de Bannon e outros líderes da direita porquê mais acolhedoras a novos eleitores que estavam distantes do seu campo político. Por que a direita foi eficiente em fazer isso e a esquerda não?
A direita que surgiu das cinzas do neoliberalismo não tem um projeto econômico transparente. É um oração muito incoerente —não em termos do que faz quando chega ao poder, mas do que diz para chegar lá.
Há muita incongruência, por exemplo, entre a fala sobre enfrentar as elites e a resguardo de trinchar impostos para as elites. É um oração familiar à esquerda na sátira aos grandes poderes corporativos, mas sua política é neoliberalismo com esteroides. O que Elon Musk vai fazer no governo é superausteridade —por isso ele tem tanto interesse em Javier Milei, da Argentina.
E é precisamente por desculpa dessa incoerência que eles conseguem montar uma coalizão a partir das falhas e dos abandonos da esquerda. Bannon estuda a esquerda muito de perto, fala francamente que lê Noam Chomsky e Lênin. Ele presta atenção aos assuntos e às pessoas que a esquerda está deixando de lado.
Nós, da esquerda, temos um oração de inclusão, de heterogeneidade, mas na prática essa cultura é, com frequência, intolerante e doutrinária. Você sente às vezes que precisa fazer um teste para entrar na esquerda e depois continuar fazendo testes para permanecer lá [risos]. É o oposto da tenda ampla e acolhedora necessária para uma coalizão vencer.
E não acho que a direita seja tão acolhedora quanto parece —são muito menos ao falar de deportações em volume e fronteiras militarizadas. Mas isso não significa que não podem se apresentar porquê uma cultura que deixa as pessoas à vontade para cometer erros e discordar.
Diria logo que os partidos de esquerda julgam mais seus eleitores, enquanto a direita não demanda zero deles?
É complicado, primeiro porque o Partido Democrata não é a esquerda. É um partido comandado por uma escol de sobranceiro nível educacional, muito interconectada —são pessoas aterrorizadas pelo populismo de esquerda, porquê de Bernie Sanders [em cuja campanha Klein trabalhou], porque o status quo funciona muito para elas.
E eu tenho menos interesse no Partido Democrata que na esquerda, porque esta é a força que pode enfrentar o fascismo. Ele [o fascismo] surge em momentos de falta sistêmica, quando o meio se despedaça, logo é necessária uma esquerda robusta para diagnosticar essas falhas pelo seu lado.
Se não houver ninguém nesse campo para entender que formas de organização e solidariedade podem ser criadas em contraposição à extrema direita, logo a raiva justificada que as pessoas sentem por não conseguir remunerar por comida e aluguel será direcionada a qualquer tipo de conspiração.
Por isso digo que a novidade direita é uma “doppelgänger” da esquerda. O fascismo sempre tem uma estranha similaridade com a esquerda real, é um pseudo-nacional-socialismo, o que não quer expor que são a mesma coisa. Não são.
É por isso que importa se a esquerda for hipócrita, se trair seus princípios e não conseguir gerar uma cultura da qual uma pessoa normal gostaria de participar.
Uma vez que a esquerda pode atrair eleitores de direita sem ceder demais em sua agenda em temas essenciais, porquê a crise climática?
Não devemos pensar nessas pessoas porquê eleitores de direita, mas porquê pessoas que votaram à direita nessa eleição e podem ter votado na esquerda em outras. Estamos em um momento de muito fluxo, zero estático.
De uma maneira esquisita, estamos meio entorpecidos por uma sequência de choques, porque eles têm vindo em “stacatto”. São crises econômicas, climáticas, pandemias, revoltas políticas. Isso virou nossa verdade, e é perigoso se afazer com políticas de desleixo em volume da vida humana.
Logo a política tem, mesmo, que voltar para o imprescindível. As perguntas são: nós valorizamos a vida? Acreditamos que todas as pessoas têm o mesmo valor no mundo?
Há uma crise místico, eu diria. Às vezes penso que o papa [Francisco] é o único que consegue falar nessa língua hoje. Precisamos de líderes que sejam vozes um tanto proféticas no meio dessa intersecção de crises, de mortes tão massificadas, que na ateneu chamamos de “necropolítica“. Também acho que devemos parar de usar palavras porquê “necropolítica” [risos]. Mantenha as coisas simples.
Mas você falou de clima. Políticas para o clima hoje são associadas, na mente dos eleitores, com a classe média e a escol intelectual, porquê preocupações de luxo, que vão deixar sua vida mais faceta.
O ecopopulismo conecta o debate sobre o clima a questões porquê mobilidade, moradia, sustento. O movimento pelo clima deve encontrar os eleitores aí no meio, não forçar uma falsa escolha entre suas preocupações climáticas e suas necessidades imediatas.
Ao final do livro, a sra. urge as pessoas a serem menos individualistas e defende que a “ruína do eu” pela qual passou foi, na verdade, positiva. Isso envolve a redução do tempo nas redes sociais?
Sim, essa é fácil. Eu sou grata a Elon Musk por arruinar o Twitter. As melhores alternativas de mídia social, agora, vão ser as que engajam menos. Eu entrei no Bluesky, e não é um envolvente tão dramático e furioso. É até meio tedioso, e tudo muito!
Não é que precisamos extinguir o ego, mas nós nos tornamos grandes demais para o nosso próprio muito. Ficamos obcecados com a otimização da nossa personalidade e da nossa marca privado. Não porque somos todos narcisistas, mas porque temos temor.
Não estamos vendo qualquer segurança econômica para além de nós mesmos e viramos nossa única boia de salvação. Quando nos juntamos em organizações, sejam sindicatos, coalizões políticas ou grupos de arte, dá uma sensação real de reforço de poder, de possibilidades.
Devemos voltar a pensar nas redes porquê ferramentas para levar pessoas a ambientes offline —porquê um grande quadro de avisos, não porquê uma rede de sociabilidade.
Em ‘Doppelgänger’, a sra. divide a sociedade entre um ‘mundo real’ e um ‘mundo espelho’. Quanto esse noção de polarização ajuda a entender a política de hoje e quanto ele mascara as diferenças que existem dentro desses grupos?
Ou as similaridades entre os dois grupos, não? Sim, mascara muito. Por isso eu concluo no livro que estamos todos em um “mundo espelho”, cada grupo de um lado do vidro. A teoria de que nós, pessoas de esquerda virtuosas que se baseiam na ciência, somos a verdade verdadeira —isso é um tipo de fantasia.
A separação mais importante é entre o mundo em que todos vivemos e o que chamo de “terreno das sombras”, aquilo para o que ninguém suporta olhar. Estamos entendendo melhor o quanto nós nos amarramos a sistemas de aniquilação e morte, um tanto que nunca enfrentamos.
Eu me refiro, por exemplo, ao tamanho da crise climática, ou o que significa investir mais e mais na perceptibilidade sintético, que cria “doppelgängers” virtuais de todo mundo enquanto suga toda a vontade do mundo material. É incrivelmente distópico e só piorou desde que escrevi.
São coisas quase impossíveis de encarar, logo nos distraímos freneticamente acusando os outros e purificando a nós mesmos. E ninguém está acertando as contas consigo mesmo, seja na esquerda ou na direita.
A crise climática, por exemplo, nem estava nas cédulas de votação em 2024. Não conseguimos mourejar com isso porque significa encarar os limites do que nós conseguimos fazer porquê indivíduos. As implicações são esmagadoras, porque o trabalho que precisa ser feito é profundamente coletivo.
Ao submergir no mundo da extrema direita porquê uma pesquisadora de esquerda, porquê a sra. se equilibrou entre a discordância profunda e a atenção honesta àquele oração?
Você tem que levar a sério. Estamos num momento de crise narrativa na esquerda, logo é importante entender por que essas histórias têm tanta sonância.
Um tanto em que toquei unicamente superficialmente no livro é o papel das narrativas judaico-cristãs apocalípticas, que apontam para o término dos tempos. No Brasil, não dá para entender a subida da ultradireita sem as narrativas religiosas, e elas estão profundamente codificadas no nosso imaginário coletivo. Somos incrivelmente obtusos, no mundo secular, em entender o poder dessas narrativas.
Nós achamos que vamos conseguir martelar fatos na cabeça das pessoas, mas você está indo contra uma cosmologia transcendente, oposta ao mundo material —com qual história você se contrapõe a isso? É por isso que o papa me interessa tanto [risos].
RAIO-X | NAOMI KLEIN, 54
Canadense nascida em Montreal, ficou conhecida por livros porquê “Sem Logo” (2000, Record), uma sátira à cultura do consumismo massificado, e “A Ensinamento do Choque” (2007, Novidade Fronteira), que argumenta que governos e empresas exploram momentos de comoção para agir contra os interesses da população. Nos últimos anos, tem se devotado à taxa do clima, por exemplo na obra “Uma vez que Mudar Tudo” (2021, Rocco). Hoje é codiretora do Núcleo de Justiça Climática da Universidade da Colúmbia Britânica, professora da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, e colunista do jornal britânico The Guardian.