Se tudo passar uma vez que o esperado, o TikTok deverá sair do ar em todo o território americano dentro de poucas horas. Posteriormente perder recursos judiciais contra a lei aprovada no Congresso em abril que obrigava a venda do aplicativo, a ByteDance tenta lucrar tempo com alguma ordem executiva de Donald Trump, mas se prepara para o pior.
É neste cenário de insatisfação que observamos nesta semana um fenômeno improvável: milhares de americanos decidiram transmigrar para uma rede integralmente chinesa, permitindo pela primeira vez em décadas um diálogo virtual direto entre os dois povos.
A eleita foi a REDNote, ou Xiǎo Hóng Shū (小红书 “Pequeno Livro Vermelho”), que surgiu em 2013 uma vez que um guia de compras para turistas chineses em Hong Kong e, com o tempo, evoluiu para uma mistura de Instagram, TikTok e Yelp.
O nome deriva das cores da Universidade de Stanford, onde se formou o fundador Mao Wenchao, mas é também uma piada espirituosa com o Hóng Bǎo Shū 红宝书 de Mao Tsé-Tung —originalmente chamado de “Livro dos Tesouros”, mas que ganhou o nome “Livro Vermelho” nas suas menções internacionais.
Ninguém estava pronto para a avalanche de americanos. O REDNote nem sequer está integralmente traduzido em inglês e até já ensaiou, mas nunca foi em frente, com planos de internacionalização. Mesmo assim, o que se viu a seguir foi espetacular.
Americanos e chineses se mostraram genuinamente interessados em entender um ao outro. Milhares de publicações curiosas sobre cultura, economia e sistema político de ambos os lados passaram a circunvalar.
Teve chinês pedindo ajuda aos amigos virtuais dos EUA com as tarefas de inglês e retribuindo com uma mãozinha nos testes de matemática. De quebra, a internet ocidental foi apresentada ao incrível tino de humor dos chineses, que não economizaram nos memes bilíngues.
Isolados devido ao “Grande Firewall”, que bloqueia o aproximação a redes uma vez que Instagram, Twitter e Facebook, chineses conversaram com o mundo quase sem filtros. Sem propaganda, exprobação ou a imagem plástica e falsa vendida pelo governo: somente gente falando com gente e se descobrindo mais semelhante do que gostariam seus líderes.
A oportunidade deixou muitos genuinamente emocionados. É que a geração Xiǎo Hóng Shū é também a que cresceu pós-Olimpíadas de 2008. Milhões de jovens que viram o país se tornar rico, relevante e globalizado e cultivavam o sonho da tal “vila global” em que as fronteiras seriam mais frouxas, os povos mais próximos, e a vida mais próspera.
Não foi o que se seguiu —não só a China, mas o mundo optou pelo nacionalismo, o antiglobalismo e as guerras culturais que nos afastaram, preenchendo o vazio com estereótipos e xenofobia.
Evidente que o aplicativo continua sendo uma empresa chinesa e, neste contexto, correu para anunciar a contratação de censores bilíngues e deletar postagens controversas. Diria, inclusive, ser bastante provável que não demore muito até que se divida em dois uma vez que foi com o TikTok.
Mas por alguns dias, foi provável interagir por debaixo deste véu e se reconhecer uma vez que ser humano. Não à toa, viralizou por lá a mensagem de uma internauta chinesa. À espera da inevitável cisão, ela escreveu: “Se realmente houver um fator incontrolável que golpe nosso contato, devemos nos lembrar do paixão e crédito que temos neste momento. E no porvir, quando tentarem nos difamar uns aos outros, poderemos expressar firmemente para nós mesmos que, em nossos corações, o que vemos não é ruim assim.”
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul inferior.