O que o mundo poderia aprender com o 8 de Janeiro do Brasil – 07/01/2025 – Rui Tavares

Mundo


Em um vídeo comentado na Folha por Marcos Augusto Gonçalves, Fernanda Torres se pergunta o que poderiam os estrangeiros aprender com Clarice Lispector, Machado de Assis ou Nelson Rodrigues.

Poderíamos também perguntar-nos: que pode o mundo aprender com o 8 de Janeiro de 2023? Creio que sei uma segmento da resposta.

Enquanto português, faço segmento dos privilegiados que podem facilmente aprender com o Brasil sem ser brasílio. Isso significa aquiescer ao tesouro da cultura brasileira desde pequeno —na minha puerícia, passada no Portugal dos anos 1970, um dos nossos grandes orgulhos era saber que Chico Buarque compusera “Tanto Mar”, dedicada à nossa Revolução dos Cravos.

Portugal foi também provavelmente o país do mundo que mais atentamente seguiu os acontecimentos da violenta insurreição que invadiu, vandalizou, urrou e defecou nos belos edifícios da terreiro dos Três Poderes, em Brasília, há dois anos.

O resto do mundo tinha já visto incrédulo aos acontecimentos precursores do 6 de Janeiro de 2021, quando uma multidão violenta invadiu o Capitólio, nos EUA. Mas poucos pelo mundo seguiram com a mesma ou ainda maior atenção o que se passou no Brasil dois anos depois.

Poderiam ter pretérito da incredulidade à aprendizagem. O poder da repetição forçou-nos a reconhecer que não estávamos unicamente perante um evento fortuito mas perante um movimento de imposição autoritária, de demonização dos adversários e de fanatismo que não admite itinerário. Um movimento essencialmente antidemocrata, por só aceitar a democracia pela metade (quando ganha).

Por muito semelhantes que tenham sido os eventos de Washington e Brasília na sua origem, a partir da sua recepção eles divergem vincadamente. Os estadunidenses —suas instituições, opinião pública e cultura política— não conseguiram extrair até ao término as conclusões daquilo que tinham vivido.

Os brasileiros —de novo, não só as suas instituições, mas também setores decisivos da opinião pública e da cultura política— não tiraram conclusões unicamente do que tinham vivido, mas também do que os seus homólogos da América do Setentrião não fizeram.

Em seu contraste, os eventos de Washington e Brasília oferecem uma prelecção sobre dois tipos de democracia: aquela a que poderíamos invocar de neutra, e a que foi convencionado chamar-se, após a obra do jurista antifascista alemão Karl Loewenstein, a “democracia militante”.

Na “democracia neutra”, o sistema democrático é entendido unicamente uma vez que uma espécie de recipiente vazio onde qualquer substância vale o mesmo, e cada um deve unicamente ser obrigado pela supostamente oriundo “dinâmica dos fluídos” no interno do recipiente.

Na democracia militante, não vale tudo; a democracia precisa de ser defendida, e os democratas têm de ter a autoconfiança necessária para fazê-lo, por meio da lei, das instituições e da cultura política democrática.

Eu não sei, taticamente, qual é o melhor caminho. Mas sei, moralmente, que se é para a democracia desabar, que caia lutando.

E aí estou uma vez que Fernanda Torres. Que pena o mundo não aprender mais com o Brasil.


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