França: 10 anos pós-atentado, Charlie Hebdo tenta resistir – 06/01/2025 – Mundo

Mundo


Na manhã desta terça-feira (7), o presidente da França, Emmanuel Macron, fará uma homenagem diante do número 10 da rua Nicolas Appert, perto da terreiro da Bastilha. Ali, uma pequena placa é a memória visível do atentado terrorista ocorrido dez anos detrás naquele endereço, onde funcionava a Redação do semanário satírico Charlie Hebdo, similar francesismo do antigo Pasquim brasileiro.

Por ter caricaturado o profeta Maomé, e defendido o direito de fazê-lo, o Charlie Hebdo foi níveo da ira do radicalismo islâmico. Em 7 de janeiro de 2015, às 11h30 de Paris (7h30 de Brasília), os irmãos Chérif e Saïd Kouachi, franceses de origem argelina, invadiram a Redação e fuzilaram 12 pessoas —5 desenhistas, 2 articulistas, 1 revisor, 2 policiais e 2 visitantes. Outras 11 ficaram feridas, entre elas o cartunista Laurent Sourisseau, o Riss, hoje proprietário do jornal.

“Matamos Charlie Hebdo!”, gritaram os irmãos Kouachi, mortos pela polícia dois dias depois.

“Não mataram”, diz à Folha o redator-chefe, Gérard Biard, 65, que estava de férias no dia do atentado. A tiragem da edição privativo logo em seguida o ataque ainda hoje é recorde na prelo francesa: quase 8 milhões de exemplares.

As homenagens serão muitas. Foram lançados um documentário e um livro, “Charlie Liberté”, relembrando as vítimas. Um novo número privativo, que chega às bancas francesas nesta terça, já teve sua cobertura divulgada nesta segunda-feira (6): um leitor sorridente, lendo o jornal, sentado em cima de uma metralhadora. Mas a tiragem será muito menor que em 2015: 300 milénio exemplares. Passados dez anos, o mundo mudou muito, não necessariamente em obséquio do Charlie.

O slogan da idade, “Je Suis Charlie” (“Eu Sou Charlie”), perdeu força. Segundo Biard, o jornal tem hoje 30 milénio assinantes e vende 25 milénio exemplares semanais. Logo antes do atentado, esses números eram um pouco menores: 10 milénio e 20 milénio, respectivamente. O semanário não aceita publicidade.

“Às vezes é complicado, mas acho que administramos nosso jornal melhor que nossos ministros administram o país”, ironiza Biard, fiel ao estilo iconoclasta.

Zombar das religiões, ou dar a sensação de zombar, tornou-se até mais aventuroso que em 2015. Em 2019, o New York Times, depois de uma caricatura considerada antissemita, decidiu parar de publicar charges em sua edição internacional. “Isso é trágico”, lamenta Biard. “Melhor fazer um boletim paroquial, não um jornal.”

Por mais que mantenha o espírito satírico, o Charlie também mudou, inclusive fisicamente. Meses depois do atentado, a Redação foi transferida para um lugar mantido em sigilo. Em 2020, sem saber disso, um terrorista paquistanês feriu duas pessoas com um moedor de mesocarpo, em frente ao vetusto endereço. Por razões de segurança, a reportagem entrevistou Biard no escritório de uma assessoria de prelo.

O Charlie Hebdo foi fundado em 1970 por dois humoristas, François Cavanna e Choron, quando o governo francesismo fechou o semanário satírico “Hara Kiri”, devido a uma manchete irreverente sobre a morte do ex-presidente Charles de Gaulle (1890-1970). A primeira encarnação do Charlie fechou em 1982, por problemas financeiros.

Dez anos depois, o jornal foi recriado, por iniciativa de Cavanna e de um grupo do qual faziam segmento Biard, Riss e cartunistas consagrados, uma vez que Cabu, Charb, Honoré, Tignous e Wolinski, todos os cinco assassinados no atentado de 2015.

Ao longo da história, a marca do Charlie Hebdo foi a irreverência. Hoje, diz Biard, o jornal se prepara para uma provável chegada ao poder da ultradireita na França. “Já em 1994 lançamos uma petição para banir a Frente Vernáculo [atual Reunião Nacional]. Hoje é complicado, porque infelizmente ela representa um terço do eleitorado. Temos que lutar de maneira dissemelhante.”

Uma vez que prova de que não perdeu seu espírito, Charlie lançou um concurso de caricaturas de Deus. Os 38 vencedores, entre eles os brasileiros Aleco e Rodrigo, serão apresentados na edição privativo desta terça. Aleco representou o papa, um mulá e um rabino uma vez que o cão tricéfalo Cérbero, da mitologia grega. Rodrigo retratou a Santíssima Trindade uma vez que os macaquinhos cego, surdo e mudo.

“Por que não posso rir de Deus?”, pergunta Biard, aproveitando para insuflar os jovens cartunistas: “Contem o que está incomodando em suas vidas. O que têm dentro do coração. Exerçam sua liberdade.”

Um concurso semelhante feito três anos detrás, chamado “Desenhe seu mulá”, desagradou os aiatolás —e conquistou milhões de fãs no Irã. “Recebemos milhares e milhares de mensagens de gratulação de iranianos”, conta o redator-chefe. Os brasileiros, segundo o proprietário Riss, também estão entre os maiores fãs de Charlie Hebdo fora da França.



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *